aforismos e afins

26 dezembro 2005

José António Lima, Expresso

MÁRIO Soares precisava, no debate final com Cavaco Silva, de ser politicamente contundente, mas também construtivo e credível. Foi, apenas e só, agressivo no tom e destrutivo nas palavras. Precisava de abrir brechas no distanciamento esfíngico de Cavaco, de o fazer descer do pedestal de superioridade em que tem decorrido a sua campanha. Conseguiu, apenas e só, desgastar-se a si próprio em ataques e indelicadezas sucessivas, reforçando a aura de seriedade e respeitabilidade do seu adversário. Mário Soares não fez uma única intervenção, uma única, ao longo de mais de uma hora de debate, com uma ideia para o país, com uma proposta mobilizadora, com uma mensagem positiva. Foi reiteradamente agreste e catastrofista. Obcecado em denegrir e abalar o adversário, esqueceu-se de que estava a falar para os portugueses, transformou uma campanha presidencial num recinto de luta livre, converteu um debate político numa conversa, azeda e ressentida, de vizinha rezingona e maldizente. Soares chamou tudo o que podia chamar a Cavaco. «Não tem competência, não tem temperamento, não tem conversa, não é um social-democrata, é um homem de direita, quer vender gato por lebre, não tem uma formação democrática precisa, não fala, está blindado, deu o poder a outro porque tinha medo de ser julgado e de perder, é um político intermitente, só gosta de panegíricos, só governa em tempo de vacas gordas, é um economista razoável, não é um supra-sumo da economia, tem vergonha do partido dele, quando está com outras pessoas ou fala de economia ou cala-se, etc., etc., etc.». A diatribe de Soares foi-se tornando, a cada remoque ou intervenção que fazia, mais incómoda para os espectadores, mais patética pela exaltação, mais confrangedora pelo excesso de linguagem e pela gratuitidade dos ataques. Cavaco nem precisou de ser melhor do que o habitual para sair claramente por cima deste debate. Bastou-lhe ignorar a má-língua, não baixar ao nível conflituoso do seu adversário, falar do que pensa poder ser o seu papel em Belém e, em sintomático contraste, deixar cair alguns elogios às qualidades do opositor. Enquanto isso, Soares tratava, acusação atrás de acusação, golpe após golpe, de dar um KO a si próprio e de se pôr fora de combate.»

3 Comments:

  • Para um gajo que nunca se engana e raramente tem dúvidas, é fácil fazer ouvidos moucos seja a quem for! O Cavaco não é nadinha arrogante, nada, enquanto está calado!
    luis

    By Anonymous Anónimo, at 1:29 da tarde  

  • JAL tem destas fraquezas de quando em vez... :)

    By Blogger Susana Bês, at 2:00 da tarde  

  • Em 1995, quando Cavaco resolveu abandonar o poder, a maioria dos portugueses estava de acordo com o que Mário Soares agora afirmou acerca do professor :

    «Não tem competência, não tem temperamento, não tem conversa, não é um social-democrata, é um homem de direita, quer vender gato por lebre, não tem uma formação democrática precisa, não fala, está blindado, deu o poder a outro porque tinha medo de ser julgado e de perder, é um político intermitente, só gosta de panegíricos, só governa em tempo de vacas gordas, é um economista razoável, não é um supra-sumo da economia, tem vergonha do partido dele, quando está com outras pessoas ou fala de economia ou cala-se, etc., etc., etc.».

    Mário Sores limitou-se a refrescar a memória curta de alguns portugueses, portanto fez o que devia ser feito e o resultado nas urnas é que vai dizer quem tem razão.

    By Anonymous Leitor atento, at 10:02 da tarde  

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