aforismos e afins

05 novembro 2005

Multiculturalismos (2)

Se o Shakespeare estivesse vivo, eu aconselhava-lhe esta reformulação: «To rinse* or not to rinse, that is the question.»

*rinse = retirar o(s litros de) detergente da loiça que se "lavou".

8 Comments:

  • Nunca decidi se o to rinse or not to rinse seria much ado about nothing. Há que reconhecer a eficiência dos ingleses na lavagem da loiça...
    Be that as it may, continuo a preferir que as únicas bolhinhas nos meus copos venham do champanhe...

    By Anonymous Joana, at 4:20 da manhã  

  • Oh Joana! Não sei como consegues apelidá-lo de "eficiente". Como em tudo na vida, há trade-offs a fazer. O tempo adicional para passar por água não é muito, acredita. Por esse argumento, também se lavava menos os dentes, ou o corpo, ou as mãos antes de comer, ou depois, etc.

    Acredita que aquilo causa um mal estar hediondo. Mas é uma questão de tal maneira cultural que eles nem se apercebessem da falta de higiene básica. Esse é o problema! Eles NÃO sabem que o resto do mundo ("civilizado") não faz aquilo! E ninguém tem coragem de lhes dizer! Ao menos podiam tentar explicar como funciona uma máquina de lavar, e depois ajudálos a "replicar" as fases de limpeza.

    É que eles vão comer detergente, acredita! Podem ser microgramas, mas ao longo duma vida tem que ter algum efeito. Aquelas bolhinas todas que ficam nos pratos, e sobretudo nos tachos, a temperar a comida!!! Isto pode ajudar a explicar o porquê de eles (sobretudo elas) terem corpos tao deformados. De resto, o "bidé" pra eles também não tem qualquer utilidade... enfim. Não se pode ter tudo :)

    By Blogger Tiago Mendes, at 12:28 da tarde  

  • Por que não "eficiente"? Parece-me que não estás a ver que eles não reconhecem vantagens ao passar a loiça por água. Como tal, a tarefa adicional não lhes traz qualquer satisfação. Rinsing, portanto, involve um custo de tempo que não é compensado por ter pratos e copos bem lavados. Chamo-lhe preferências diferentes. Claro que as bolhinhas têm consequências... eles são pálidozinhos e loirinhos.

    Acho piada que fales na higiene. Os ingleses não são propriamente fãs do chuveiro... ou de visitas diárias à banheira. O frumpy look é charme nacional.

    Quanto aos bidés... também não os há nos EUA. A maioria dos americanos não sabe o que são e, quando descobrem de que é que estás a falar, não percebem para que servem.

    Não, não se pode ter tudo... e alcatifa na casa-de-banho, tens?

    By Anonymous Joana, at 2:30 da tarde  

  • Alcatidas, em todo o lado! Mas por acaso a minha casa é um bocadinho mais "continental", digamos (eles diriam - very plainly - "european").

    No entanto, eu náo concordo contigo pela mesmíssima razão que tu apontas em relação aos EUA - eles simplesmente não têm consciência do que (não) estão a fazer. Se tu lhes disseres que aprecias a "eficiência" deles terem a loiça cheia de detergente para poupar tempo e água, eles simplesmente dirão "What the hell are you talking about??".

    Eles simplesmente não raciocinam sobre isso. Tal como a maioria das pessoas não calcula a probabilidade de o seu voto ser pivotal quando vai votar.

    Ou seja, eles podem ter preferências diferentes, mas isso não é óbvio. E, de qualquer forma, o teu argumento é algo tautológico, porque tu podes sempre dizer que qualquer comportamento é eficiente dum ponto de vista ad-hoc: senão o fosse, não era escolhido.

    By Blogger Tiago Mendes, at 2:39 da tarde  

  • Tiago,
    Sorte a tua a ausência da alcatifa.

    Desculpa, erro meu: o sarcasmo nem sempre é perceptível. Eu não "aprecio" a eficiência, limito-me a procurar uma explicação racional para o facto. Neste caso, acho que se baseia em preferências diferentes.

    Em alternativa, é possível que os ingleses resolvam o seu problema de optimização num contexto de informação (e formação) diferente do teu ou meu. Daí que o que eu digo não deva ser encarado como uma tautologia. A tua solução, sim, parece-me um lugar comum: as coisas são assim porque são. Coitadinhos, não pensam. Pelos vistos, quando tu lhes apareces à frente e chocas o sistema, nada muda. O choque oferece-lhes a oportunidade de pensar sobre o assunto, o que eles fazem durante dois segundos, acham perda de tempo, e continuam a sua vida.

    Já pensaste em perguntar como é que eles acham que as dishwashers trabalham? Eu imagino que em casa de grad students não haja dishwashers, mas talvez em casa dos pais.

    By Anonymous Joana, at 3:17 da tarde  

  • Joana: aqui tenho que ser eu a socorrer-me dos argumentos do meu amigo João Galamba. O meu ponto não era rejeitar o teu "sarcasmo" nem sequer anular por completo a hipótese de que os ingleses fazem isso por uma questão de "eficiência". Era apenas frisar que aqui o "hábito" e as "tradições" têm provavelmente um papel muito maior do que a anáise *consciente* do custo-benefício. Era só isso. Não leves a mal os meus comentários!

    As minhas flatmates conhecem dishwashers, claro. Mas sinceramente acho que elas não "realizam" perfeitamente a diferença. E, quer realizem, quer não, acho que o hábito está demasiado inculdado nelas para que elas passem a passar a loiça por água só porque a maquina na casa dos pais eventualmente o faz.

    Eu ainda não tive coragem para lhes apontar essa pequena diferença "cultural", que por acaso tem implicações grandes para a saúde, sobretudo psicológica-mental. Ver a loiça a escorrer detergente é simplesmente de bradar aos céus.

    Há pessoas que gostam de se secar com "roupões". Eu não gosto. Mas acho que a comparação mais próxima era uma pessoa sair do duche ensaboada e deixar a espuma escorrer para o chão e ser abosrvido pelo roupão (para além da secagem natural).

    REvisto o ponto da "eficiência" à luz do que escreveste no último ponto, dou a mão à palmatória. E acredita que eu gostaria de saber responder cabalmente a esta questão, mas não tenho coragem para as enfrentar, apesar de serem muito simpáticas! O que um diplomata chamaria "cultural pitfalls". OU, enfim, os problemas do "multiculturalismo" à escala caseira.

    By Blogger Tiago Mendes, at 3:26 da tarde  

  • Ok. Fizeste-me rir outra vez com os roupões.
    Tens razão em não abordar as chicks. Tudo em prol da boa vivência. E as diferenças culturais são complicadas de abordar. Por exemplo, a minha colega de gabinete na escola era chinesa, e quando comia... a falta de maneiras ocidentais punha-me doida. Mas que fazer? Sair do gabinete e voltar mais tarde, claro.
    E por falar em multiculturalismos... vou sair para uma aula de cozinha indiana. Ah, as vantagens de estar num sítio assim...
    Tem um bom Sábado.

    By Anonymous Joana, at 3:38 da tarde  

  • Pois! Eu lembro-me duma conferência onde estive onde os chineses bebiam chá (muito!) ruidosamente! Só depois vim a saber que era assim que eles tinham que fazer, não sei bem se para demonstrar apreço pela bebida ou não.

    E para não falar em certos amigos indianos (todos "brâmanes", de alta estirpe) que sempre que me convidam para repastos mais íntimos, acabam comendo com as mãos. Eu não consigo, juro. Não percebo a utilidade. Comer uma banana sem talheres, ok. Ou mesmo outra fruta. Mas coisas com molhos??? For God sake! Aliás, eu sempre que vejo unhas não impecáveis, é logo de por os patins ;)

    Bom Sábado também para ti.

    By Blogger Tiago Mendes, at 3:52 da tarde  

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