aforismos e afins

07 dezembro 2005

Uma coisita... hermenêutica

O João Galamba publicou esta ideia de Nietzsche:

«An aphorism, properly stamped and molded, has not been "deciphered" when it has simply been read; rather one has then to begin its interpretation, for which is required an art of interpretation.»

O Manuel Pinheiro respondeu-lhe com um aforismo de Churchill:

«An aphorism is not an aphorism unless you know what it means.»

Eu não posso aceitar a frase de Churchill porque ele simplifica demasiado a ideia, caindo não só num erro formal na sua definição [X não é X a não ser que Y], como também num erro substantivo ao sugerir um objectivismo universal [impossível (não só) na linguagem]. Comentei isso aqui. Não desdenhando a ideia de Nietzsche, e aproveitando a sugestão de Churchill, que me parece interessante ao enfatisar a importância do outro, propunha então o seguinte:

«Um aforismo não é [um] bom [aforismo] se não for facilmente entendível.»

Assim, não só nos livramos do erro categórico formal, como enfatisamos a importância do outro, mas sem abrir mão da (inevitável) subjectividade hermenêutica existente. De acordo?

8 Comments:

  • E como é que se formaliza este aforismo de Fernando Pessoa: « O paradoxo só tem valor quando o não é»?

    By Blogger Daniel, at 11:51 da manhã  

  • "Don't ask about meaning, ask about use."

    wittegen.



    Um aforismo é um verdadeiro desaforo para qualquer teoria essencialista/mentalista/referencialista do significado.

    By Anonymous p.ferre., at 11:56 da manhã  

  • Caro Daniel,

    Como é que se "formaliza" ou como é que se "entende"?

    Acho que há pelo menos três vias. Uma é a lógica. Aí diria que FP poderia querer dizer que o paradoxo só tem valor quando é - enquanto paradoxo - consistente. Isto é, quando não é um duplo paradoxo. Isto não é lícito que tenha qualquer validade, atenção.

    A segunda interpretação é mais metafórica. FP poderia estar a ilustrar através dum exemplo (a própria frase) um paradoxo, ou seja, a dar uma definição sem sentido.

    A terceira é que poderia estar apenas num momento de bebedeira a jogar às palavras. O que de resto não seria nada paradoxal nele :)

    By Blogger Tiago Mendes, at 12:13 da tarde  

  • ""Don't ask about meaning, ask about use."

    What's the meaning of "use"? Or the meaning of "meaning"? :)

    By Blogger Tiago Mendes, at 12:14 da tarde  

  • E se eu for burro e não entender o aforismo? O ser entendivel como critério de um bom aforismo é algo de muito arbitrário. ezequiel

    By Anonymous Anónimo, at 2:05 da tarde  

  • Ou referes-te ao ser entendivel como critério que emana da natureza intrinseca (sim, uma dosezinha de platonismo só para nós chatear) do aforismo?ezequiel

    By Anonymous Anónimo, at 2:06 da tarde  

  • Invertamos o aforismo reconhecível e consuetudinariamente falso - o hábito (habitus) não faz o monge. Ora, tal como o monge não é monge de per se mas, ao invés, é monge porque usa o hábito(habitus)sendo-lhe assim atribuída, também por este uso, a condição de monge,da mesma forma e conversamente as palavras (e os aforismos)não possuem um significado de per se, mas somente quando estão inclusas em usos e contextos comunicacionais contextuais.
    O significado de palavras e "enunciados" resulta dos seus "jogos performativos".

    Don`t ask p.ferre., ask Wittgenstein

    By Anonymous p.ferre., at 2:31 da tarde  

  • Perfeito, caro p. ferre., oops, I mean, Witt. ;)

    Gosto especialmente dos "jogos performativos".

    Caro Ezequiel,

    Alguém saber que é burro é algo já precioso em si mesmo :)

    Quanto ao aforismo, repara que eu não o defendo (necessariamente) na substância, mas apenas proponho uma redefinição formal do aforismo de Churchill, que enferma 2 erros, um formal, outro substantivo.

    No caso, referia-me ao "entendível" da forma mais hermenêutica-holista possível, não pensava em grandes platonismos, se bem que sempre bom relembrá-los, nem que seja so para chatear o João.

    Para mim, um aforismo é "bom" apenas e somente devido à sua natureza intrínseca, mesmo que o povo não o compreenda. Será "eficaz" se for entendido pelas pessoas certas, que tornam (nesse acto performativo) o aforismo um "sucesso". Mas pode haver aforismos bons que são totalmente desconhecidos ou incompreensíveis pelo comum dos mortais. Terão é pouco impacto. Mas eu distinguiria "qualidade intrínseca" de "percepção da qualidade". Claro que o intrínseco é impossível de descobrir - este sim é um verdadeiro platonismo! É só uma "balização" das coisas.

    Aparece mais vezes, Z :)

    By Blogger Tiago Mendes, at 2:41 da tarde  

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