aforismos e afins

25 junho 2005

Lisboa (3)

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

2 Comments:

  • Lisboa, será sempre Lisboa. Sempre teremos saudades dela. No outro dia, ia de carro com a Rosarinho, a passar pela Baixa, e demos em olhar com olhos de ver. Quando se passa todos os dias pelo mesmo sítio, escapa-nos a sua beleza. Ela comentou exactamente isso, nesse dia. Da beleza a que Lisboa nos habituou.

    By Blogger marta, at 9:11 da manhã  

  • Num sol que escalda e alimenta,
    que nutre e se evapora,
    no sal que fica na pele,
    se lambe, se sente, se adora.
    Na esfera amarela discreta,
    perdida entre sangue e esperança,
    com guitarras e uma voz concreta,
    que tece para sempre a lembrança.
    és mar, e campo de gado,
    sardinha em broa regada.
    és tinto, és rosa, és fado.
    és Cristo prós lado de Almada.
    É povo, que ri e desdiz,
    entre cigarros e a bica,
    povo que só é feliz
    quando é feliz o Benfica.
    Bandeiras da minha terra,
    decoram os varandins
    Ficando a cor diluída
    em rezas e querubins.

    és 21% em vez de 19%
    és terra de cegos,
    és paraíso consumista.

    és católico, não praticante.
    és tremoços com cerveja,
    és a tia, a beata e a puta,
    clientes da mesma igreja.

    és todos os que estão lá fora.
    E os que vão pra fora cá dentro.
    A telenovela brasileira mais a cópia
    O shopping que nem sempre é o centro.

    Portugal é assim,
    a mistura do agora e do que já foi. Salazar com novo penteado. Sócrates revisited.
    Que se sente em cada regresso, como pastéis de Belém acabados de sair do forno.

    in http://sensexus.blogspot.com/

    By Blogger Patricia, at 8:31 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home