aforismos e afins

28 outubro 2005

Simplificando (2)

A direita privilegia a liberdade negativa ("liberty from") enquanto a esquerda privilegia a liberdade positiva ("liberty to"). De um lado a "não interferência" na esfera individual, do outro o desejo que todos tenham alguma "capacidade para", mesmo que isso obrigue a interferir na vida (ou, mais exactamente, na "propriedade") dos outros. [Dedicado ao Miguel Madeira, em seguimento disto].

3 Comments:

  • Em primeiro, lugar, obrigado pela dedicatória!

    Complicando:

    Imagine um hotal que possui uma praia-resort, em que só os clientes do hotel podem ir à praia. Esta está rodeada de arame (e, eventualmente, alguns seguranças), para impedir a entrada de intrusos.

    Questão: será que os não-clientes que se vêm impedidos de ir à praia em causa estão a ser limitados só na sua "liberdade positiva", ou será que também a "liberdade negativa" está a ser restringida? Afinal, há claramente um elemento de coacção (pelo menos, potencial) a impedi-los de ir à tal praia.

    É que os liberais têm tendência a esquecer que a própria existência de "propriedade" já é, em si, uma restrição à liberdade (mesmo "negativa").

    Por outro lado, o TM não estará a confundir "direita" com "liberalismo"? É que a ideologia direitista arquétipica é o conservadorismo, não liberalismo...

    By Anonymous Miguel Madeira, at 6:44 da tarde  

  • Eu estou a simplificar demasiado, e' certo. O unico intuito e' provocar um bocadinho e tentar que se perca a mania (o proprio Cavaco ja' dizia isso na entrevista em 1991) que nao ha "nada" que separa a esquerda da direita.

    E' verdade que tal como eu formulei, isso seja mais adequado ao "liberalismo" do que 'a "direita" tal como a vemos. Mas eu volto a enfatizar que tratamos aqui de terreno teorico, e nao da realidade (por exemplo) portuguesa, onde existe muita direita iliberal.

    Quanto ao exemplo proposto, nao e' muito bom, por utilizar a "praia". Para mim, a propriedade nao representa qualquer violacao de liberdade, positiva ou negativa. Desde que se faca de forma nao coerciva, a forma como se adquire propriedade tem que ser respeitada.

    Alias, se quisessemos essa poderia ser outra forma de distinguir esquerda e direita. Enquanto a esquerda defende que "a própria existência de "propriedade" já é, em si, uma restrição à liberdade (mesmo "negativa")", a direita nao ve isso dessa forma - de longe.

    Talvez publique uma terceira "simplificacao", esta, mais que "dedicada", "fabricada" pelo MM!

    By Blogger Tiago Mendes, at 6:50 da tarde  

  • “E' verdade que tal como eu formulei, isso seja mais adequado ao "liberalismo" do que 'a "direita" tal como a vemos. Mas eu volto a enfatizar que tratamos aqui de terreno teorico, e nao da realidade (por exemplo) portuguesa, onde existe muita direita iliberal.”

    Mesmo no terreno teórico, os conservadores não são liberais: os teóricos conservadores dizem claramente que são contra o liberalismo (1,2) (ainda que de certeza que o TM vai argumentar que “libertarianism” e “liberalismo” não são sinónimos).

    Aliás, como já referi, até é mais na prática politica (e não na teoria) que os conservadores se aproximam mais do liberalismo: ao contrário do que se passa entre os intelectuais, os partidos conservadores, hoje em dia, tendem a ter programas parecidos com o dos liberais – veja-se Tatcher a dizer que “a sociedade não existe”, coisa que nenhum teórico conservador diria (já agora, este texto(3) a apresentar o livro de Roger Scruton afirma que “the Conservative Party was in Office (…) with a philosophy that was more liberal than conservative” – e se o conservador Scruton põe esse texto no site é porque concorda)

    ”Quanto ao exemplo proposto, nao e' muito bom, por utilizar a "praia"”

    Porque não? Por estarmos habituados a achar a praia como um espaço público?

    “Para mim, a propriedade nao representa qualquer violacao de liberdade, positiva ou negativa. Desde que se faca de forma nao coerciva, a forma como se adquire propriedade tem que ser respeitada.”

    Se definirmos coacção como “o uso de força ou ameaça de força”, a propriedade assenta na coacção: quando eu digo “Isto é meu!”, estou a dizer “Estou disposto a usar a força – ou a chamar a polícia – se alguém tentar usar isto sem a minha autorização!”.

    ”Alias, se quisessemos essa poderia ser outra forma de distinguir esquerda e direita. Enquanto a esquerda defende que "a própria existência de "propriedade" já é, em si, uma restrição à liberdade (mesmo "negativa")", a direita nao ve isso dessa forma - de longe.”

    Pois, poderia ser uma coisa assim:

    “A Esquerda considera que a propriedade limita a liberdade, enquanto a Direita considera que o respeito pela propriedade é condição necessária para que haja alguma liberdade”

    Se quisermos uma definição que consiga pôr de um lado Bakunine, Estaline e Olof Palme, e do outro Milton Friedman, Joseph de Maistre e Mussolini, esta é capaz de ser a melhorzinha.

    Já agora, aqui não dá para se pôr links no texto?

    1) http://emp.byui.edu/DavisR/202/Libertarians.htm
    2) http://es.geocities.com/sucellus23/808.htm
    3) http://www.rogerscruton.com/books/meaning_of_con.html

    By Anonymous Miguel Madeira, at 1:11 da manhã  

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