aforismos e afins

29 novembro 2005

Cruzes (2)

No Blasfémias, escreve José Pedro Lopes Nunes:

«Os símbolos religiosos são funcionalmente semelhantes, segundo esta visão, a símbolos discriminatórios de outra natureza, tais como os símbolos políticos ou desportivos. A discriminação associada ao uso de símbolos tanto pode ser favorável como desfavorável, e pode interferir com a liberdade dos outros, com a igualdade de direitos e com a igualdade de oportunidades. (...)
A sociedade deverá, ainda na mesma linha de pensamento, dar passos no sentido de se libertar de símbolos discriminatórios em locais públicos, mesmo que admitamos que, muitas vezes, eles são colocados por genuína simpatia e compaixão.»

N'O Acidental, refere-se (com bastante humor, há que dizê-lo) medidas que se seguiriam, numa espécie de efeito bola de neve, à retirada dos crucifixos da escolas públicas, a proposta da Associação República e Laicidade de retirar o Cristo-Rei e a proposta de Sócrates de acabar com os feriados religiosos.

Paulo Pinto Mascarenhas volta a falar da tal associação republicana neste post, depois de ter (de forma falaciosa) apelado às consequências que tal medida teria, fazendo uma analogia (?) com o que se terá passado em França.

Formalmente, reagir a uma medida concreta, e isolada, que é a retirada das cruzes, apelando a certas consequências que dela adviriam, engloba-se na manobra muito habitual de «dispersão» dos argumentos, fazendo crer ao interlocutor que há uma relação (lógica) entre a medida tomada e outras medidas "perigosas" que lhe seguiriam. É a Falácia da Derrapagem (bola de neve). Uma coisa muito comum nos debates políticos que vemos diariamente.

Isto para não falar do «destaque» que é dado à associação republicana. Tratar o assunto da laicidade, pegando nessa associação e usando-a como arma de arremesso, é análogo à manobra de certa esquerda de, a propósito do aborto, fugir ao tema, e apontar algumas associações que defendam a prisão das mulheres. É fugir ao tema. É pegar numa amostra enviesada, que escolhe aqueles que têm posições extrema(da)s em cada um dos assuntos, para "assustar" o povo. É apelar ao preconceito, usando as imagens de Afonso Costa e outros jacobinos.

N'O Insurgente, o João tem uma séria de posts com muito, mas mesmo muito humor (estou a falar a sério). Recomendo vivamente que leiam este, este, e este posts. LT, também n'O Insurgente, defende seriamente, e não com a (interpreto eu) ironia de PPM, que há mesmo uma implicação lógica entre defender a retirada dos crucifixos e defender a abolição dos feriados religiosos.

Acho o humor é essencial. Notaria apenas uma coisa. Quando sobre certos assuntos só se consegue fazer humor, quando esse humor é sempre baseado em falácias e preconceitos (o que é inteiramente normal e respeitável para fazer humor), e quando não se diz mais nada sobre o assunto (para além desse humor), acho que isso não pode deixar de ser (como tudo o resto)interpretável. E quase sempre essa atitude é elucidativa.

Parece-me que certa direita portuguesa perdeu (mais) uma boa oportunidade de mostrar que não tem medo de defender uma separação de poderes, sem temer ser acusada de jacobinismo ou de estar ao lado de associações mais ou menos extremistas, ou de "trair os seus". Isto assumindo, claro - o que não é lícito - que ela de facto defende uma separação de poderes.

Lembremos que essa separação de poderes não implica que se acredite numa "super-neutralidade", como parece sugerir Carlos Novais na Causa Liberal. Uma neutralidade universal é de facto impossível. Não há absolutos. Mas daí a relativizar quase tudo e distorcer as próprias premissas vao alguma distância. Se a Educação do Estado é de facto urgente, como defende CN, não é essa urgência que muda alguma coisa na avaliação da medida em causa relativa à retirada dos crucifixos. O hábito de criticar uma medida porque ela não é urgente não é um argumento em si.
É, senão uma escapadela, no mínimo uma escorregadela.

É neste contexto que o artigo de José Pedro Lopes Nunes, que não defende nada de "chocante" ou "extremado", acaba por parecer uma corajosa pedrada no charco na(lguma) blogosfera de direita portuguesa. Sem aquele gostinho de barricada.

2 Comments:

  • Caro Tiago,

    Não sei se lhe chamaria necessariamente uma implicação lógica, mas vejo-os como dois pontos de uma mesma estrada. Estará um deles muito afastado do outro? Sem dúvida, mas ainda não consegui encontrar quem me explique o porquê de ser contra uns (crucifixos) e a favor de outros (feriados religiosos). Pode ser que o Tiago tenha a paciência para me explicar (utilizando, como gosta, a lógica) esta separação.

    De resto tento, sempre que possível recorrer ao humor, mas por vezes não o consigo fazer. :)

    Mais uma vez volto a salientar que não sou católico, crente ou praticante (heresia!), embora tenha sido baptizado e recebido a 1ª comunhão. Para além disso pouco me importa que me acusem de jacobinismo ou outro ismo qualquer. As minhas convicções limitam-se ao liberalismo e pouco mais. E mesmo esse, ao contrário de grandes figuras da blogosfera, não baseado em teorias ou pensadores do passado e do presente, mas apenas no meu bom senso e em alguns conhecimentos elementares de economia.

    By Blogger LT, at 5:27 da tarde  

  • Caro LT,

    Obrigado pelo seguimento. Subscrevo, em primeiro lugar, isto:

    "E mesmo esse, ao contrário de grandes figuras da blogosfera, não baseado em teorias ou pensadores do passado e do presente, mas apenas no meu bom senso e em alguns conhecimentos elementares de economia."

    Em segundo lugar, penso que é possível - é desejável - defender um laicismo do Estado, táo completo quanto possível, sem ser "exagerado" ou "histérico", a par da existência oficial de feriados religiosos.

    Não sou especialista para falar disso com palavreado bonito, mas não vejo como é que um liberal - para não dizer qualquer pessoa com bom senso - pode negar a evidência e o peso da tradição e da história dum país. Isto reflecte-se de forma natural na existência de feriados, que são celebrações que "foram surgindo" com o tempo, e criando raízes na nossa sociedade.

    Mas parece-me que isto não tem muito que ver com a história dos crucifixos, nem com a presença de figuras do clero em actos oficiais, nem com o acto recorrente de "benzer" coisas que são inauguradas oficialmente. Isto não é jacobinismo. É apenas separar o Estado da Igreja. Isso não implica, não vejo mesmo como, que se proibam os feriados.

    Repare que os exemplos citados (que exemplificam a necessidade de laicismo) dizem respeito à esfera (puramente) política, enquanto os feriados têm a ver com questões culturais e sociais. Ora, um Estado liberal não deve imiscuir-se naquilo que é o resultado da ordem espontânea, desde que em consonância com princípios básicos. (ex: escravtura não é admissível mesmo que seja ou tenha sido tradição, porque viola um direito básico).

    Acho que é essa confusão entre o político e o social que torna as coisas turvas. Ninguém aqui quer tirar a importância que a Igreja e outras religiões têm no nosso país. Isso não pode ser confundido com um patrocínio do estado dessa discriminação em situações que são eminentemnte políticas e onde se exige neutralidade.

    Um abraço,

    By Blogger Tiago Mendes, at 5:36 da tarde  

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