aforismos e afins

13 junho 2005

Cunhal (1)

Morreu o «príncipe dos comunistas», aos 91 anos. Dia de reflexão difícil para um anti-comunista não primário como eu sou. Costumava pensar há uns anos, a par com um amigo meu também (ainda mais) anti-comunista, como seria o dia da morte de Álvaro Cunhal. O que se diria, o que ficaria na História, quantas pessoas iriam ao funeral, entre outras perguntas de adolescente. Hoje, depois de mais de três horas a ouvir a TSF e a reflectir, não evito verter uma lágrima e não consigo perceber bem porquê. [Escrevo a correr e sem (querer) rever demasiado.] Não são certamente lágrimas pelo ideólogo. Serão em parte pelo homem de coragem, de grande coragem. Um homem vertical, mesmo que eu abomine a «religião» que foi a espinha dorsal dessa verticalidade. Um homem das artes. Um intelectual. Um amante das mulheres. Um homem ateu que viveu a angústia da velhice e da chegada da morte de forma duramente lúcida.

É difícil ser moderado na análise de Álvaro Cunhal. É verdade que Mário Soares «ganhou» a história, isso é inegável. Mas eu olho para o dr. Soares, aquele seu ar aburguesado e esponjoso (não só físico mas sobretudo intelectual), e não consigo ter grande admiração por ele. Por Cunhal não tenho qualquer admiração enquanto ideólogo, repito.
É a «postura» que me traz alguma admiração, que declaro ter dificuldade em compreender [escrever ajuda um pouco]. Pacheco Pereira e Maria João Avillez são pessoas a ter em conta, porque conheceram algo mais que vai para além da banalidade das declarações destes dias. Nas comparações inevitáveis nestes dias, sinto que Mário Soares não passa de um «homem normal» que venceu, enquanto Cunhal inspira o mito do «homem superior», ainda que tenha sido derrotado. Este dia em que a ceifeira colheu também o poeta Eugénio de Andrade, há a lágrima inevitável da lembrança de que mais dia menos dia já não estamos aqui.

Cunhal desenhava em todas a reuniões na clandestinidade. Desenhos de mulheres, quase sempre, recorda a Zita Seabra. Sem ter sido um «grande» artista, foi-o. A grandeza não importa tanto - mais importa a vontade, a fúria de querer exprimir-se, de querer «ser», como diria Vergílio Ferreira. Neste dia estranho, recordo um dos seus livros,
«A estrela de seis pontas», em que relatava uma conversa entre os presos. Dizia ele algo assim (cito de cor): que o único mistério verdadeiro do mundo que valia a pena tentar desvendar era saber se quando uma mulher dizia «não» a um homem realmente queria dizer «não», ou era um «sim» disfarçado. Cunhal morre hoje, protegido na intimidade que impôs, vertical, misterioso, certamente em extrema solidão e dor. Mas todos sabemos que ele sempre existirá.

2 Comments:

  • Gosto deste texto. Para um anti-comunista... viste claro.
    Eu gostava do Cunhal!

    By Blogger Isabela, at 3:16 da tarde  

  • Só agora ouvi que ele nascera a 10 de Novembro... era quase impossível que não fosse escorpião. Era esse o elo que faltava e que no fundo não faltava porque estava lá, em tudo o que disse, apenas inconsciente.

    By Blogger T. M., at 4:27 da tarde  

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