aforismos e afins

07 junho 2005

«(...) lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê. Que dias há que na alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei porquê.»

O que distingue a poesia da prosa? O ritmo? A rima obviada pela quebra de linha? A pausa das entrelinhas? A perfeição da incompletude gramatical das frases? Ambas têm a sua musicalidade. A prosa consegue a sua musicalidade através dos sons mas sobretudo das pausas. A vírgula, o ponto e vírgula; o ponto final. E as reticências, claro... Basta lembrar o escrever de Saramago ou Lobo Antunes para entender como a prosa pode ser musicada. No fundo é isso: toda a escrita tem a sua música, que em geral é bastante monocórdica, um pouco como os cantares dos padres católicos, sempre unissonais a finalizar na clássica terceira menor descendente.

Ter sensibilidade na escrita é pensar na sua musicalidade, e não apenas no que se diz - e isto concerne obviamente apenas a estética. Escrever é também escolher a forma musical da composição escrita. Lembrar onde se quer ter os pianos, os fortes, as suspensões, a mudança de tonalidade, a cadência, isso tudo. Podemos querer escrever um nocturno, ou uma sonata, ou mesmo uma sinfonia para os mais ousados. Mas o som que geralmente ouvimos não são mais que prelúdios para coisa nenhuma ou fugas desde o desconhecido.

Quem lê - o que quer que seja - tem a responsabilidade de interpretar a composição que tem à sua frente. A dificuldade de entender a forma como o autor quis que as suas palavras fossem interpretadas. É isto: cada vez que leres o que quer que seja tens que ser um Sokolov à beira de um Steinway. Não marteles as teclas. Toma consciência do poder das tuas mãos e do que vem de dentro de ti. Para que tudo o que toques seja vivido, mesmo se não inteiramente compreendido.

E depois diz lá se esta perfeição musical não é Bachiana.

4 Comments:

  • Este texto dedico-o à minha irmã chiquitita, que não o é tanto assim mas sê-lo-á sempre tanto. Que toques muito, que vivas o que toques, que te ponhas o peso todo do de «ti» na magia das mãos namorando as teclas.

    By Blogger T. M., at 11:31 da tarde  

  • Entre o poeta e o leitor não existe propriamente uma comunicação, como se pode ler das tuas palavras, será talvez uma fusão ou mesmo uma comunhão. Num poema, essa comunhão inicia-se naquela zona de silêncio, quando o leitor termina a leitura do texto. O poema comporta-se como um organismo verbal produtor de silêncios.
    O poema que muito bem escolheste, impõe um silêncio que chega ser a ser brutal.

    By Blogger jmnk, at 10:46 da tarde  

  • Essa é uma grande questão para a teoria: o que as distingue.Às vezes, nada. Mas a escrita é sempre uma composição musical na qual o ouvido joga papel fundamental. E este teu texto é muito oportuno.

    By Blogger Isabela, at 12:22 da manhã  

  • Comunhão, jmnk, acho que sim. E sobretudo a necessidade do silêncio que se segue ao vendaval da leitura, o assentar da poeira que levantou. E o silêncio é tão mais valioso quanto mais musical tenha sido o que o precedeu, como disse a Isabela. Tx 4 d comments.

    By Blogger T. M., at 1:01 da manhã  

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