aforismos e afins

11 junho 2005

Prostituição

Afinal as pessoas têm ou não o direito a prostituir-se? Quer dizer, têm ou não o direito a «escolherem» vender o corpo e a ver que a sociedade as olha como seres autónomos? Ou estão condenadas a ser vistas como pessoas que caíram na desgraça, perderam a auto-estima e tudo isso? Claro que muitas delas - certamente as drogadas - perdem capacidade de controlo delas próprias. E há outros casos de desgraça também conhecidos. Mas não devemos tirar a discussão do ponto de vista (também) teórico - isto é, do ponto de vista dos «princípios» e do «direito à prostituição». As prostituas em Amsterdão parecem-me, não diria alegres por não me arrogar conseguir ver isso mas «de bem com a vida». Fazem o seu trabalho com orgulho e «assumem-se». Podemos achar isso moral ou imoral, mas elas são parte da sociedade - e são respeitadas. São parte da história, muitas vezes «nobre», como nos recorda a Espelho.

Eu sou a favor da legalização da prostituição, para bem das prostitutas sobretudo. Quem fica a perder são os clientes que adoram passear pelas ruas de Lisboa a mirar quem se vende. A Isabela não concorda com isto - vejam aqui. Esta é também daquelas questões em que homens e mulheres estão condenados a ter opiniões (estatisticamente) diferentes. Acho que nunca vi uma mulher portuguesa, não prostituta, que olhasse para a prostituição como uma questão de «escolha» e não como a desgraça das «pobrezinhas», «coitadinhas», que «tiveram que» cair na má vida. O discurso típico da Odete Santos. Um bocadinho mais de responsabilização e respeito pelo outro só fazia bem a este país à beira mar afundado.

8 Comments:

  • Direito, certamente que têm. A pergunta seria realmente essa?

    Prostituição, prostituição que me preocupa é a outra...

    As prostitutas de Amsterdam sempre me chamaram a atenção, também: sindicalizadas, com plano de saúde e plano dental. Talvez previdência.

    Carolas e os falsos moralistas dizem que isso é um absurdo. O que é um absurdo? De onde vem esta palavra, afinal?

    Correndo o risco de soar meio piegas e lugar-comum, mas absurdo são as crianças dormindo nas ruas, são as lavadeiras sem plano de saúde, são os bóias-frias sem sindicato, é a malária ainda matar tanta gente.

    Mobilizar a sociedade por algo que de fato dê frutos, e mude a qualidade de vida dos desvalidos, assim penso eu...

    Isso é absurdo. Vemos tantos absurdos, todo dia, a toda hora, que nossos olhos se adormecem e se fecham e prefiro não pensar nisso. Há muito fog nos meus olhos.

    By Blogger Daniela, at 10:00 da manhã  

  • O que se passa é que vivemos numa sociedade "à la carte"... na qual estar na imagem é existir. Interessa os disfarces, as máscaras, a imagem que cada um consegue criar de si mesmo e ter dos outros, para poder participar no jogo do faz-de-conta. Faz de conta que sou, faz de conta que tenho, faz de conta que não existe... A hipocrisia é capaz de iludir o mundo inteiro... e quando será que isto terá fim? Sou completamente a favor da legalização da prostituição na nossa sociedade, porque ela existe de qualquer forma, sendo legal ou não,... numa esquina perto de si.

    By Blogger Patricia, at 2:49 da tarde  

  • Caro Espelho: essa tua expressão resume bem a forma de os portugueses (e não só) verem as coisas e viverem a sua vida (o "irem andando" como a cabeça mais ou menos entre as orelhas): o "fazer-de-conta". A vida em sociedade, na sociedade portuguesa, é demasiado um faz-de-conta...

    By Blogger T. M., at 3:25 da tarde  

  • Acho graça que associes o meu discurso ao das mulheres que dizem "coitadinha", quando passam pela prostituta! Como se eu não tivesse afirmado, antes, que se precisasse de me prostituir o fazia valentemente. As mulheres portuguesas também costumam afirmá-lo publicamente? Ou será, "eu nunca, jamais, preferia morrer!"
    Um questão só pode ser equacionada economicamente depois de ser resolvida filosoficamente.
    Quando falas de mais responsabilização e repeito pelo outro não estarás certamente a referir-te a mim!

    By Blogger Isabela, at 3:28 da tarde  

  • Calma Isabela, acho que não interpretaste bem, talvez por culpa minha que escrevi à pressa.

    Não é bem o chamar "coitadinha" quanda passas por ela na rua, é mais ao nível do debate intelectual, quando estás fora do contexto e falas delas como tendo sendo sempre "lavadas para a má vida", porque - coitadas - não tinham outra escolha.

    É este "coitadinhas" que é profundamente paternalista e que retira capacidade de escolha (e consequente "responsabilização") à mulher como o qual eu discordo profundamente.

    O teu "se me prostituísse, fazia-o valentemente" fez-me lembrar - NÃO LEVES A MAL - o Pessoano "põe quanto és no mínimo que fazes" :) :)

    Quanto á escolha económica ser posterior à filosófica - ie., à questão de princípios - percebo, e concordo em geral, embora tu possas ter na tua hierarquia de princípios o "dinheiro" como valor máximo. E aí a escolha que tu chamas "económica" seria simultaneamente filosófica e a primeira a ser ponderada.

    FInalmente, eu de facto quando falava de "respeito" dirigia-me a ti mas apenas a ti enquanto pessoa que me parece retirar alguma da carga (tou-me a repetir) da escolha e responsabilização. Não era para TU te responsabilizares! Era para deixares uma dimensaõ de responsabilidade na escolha de ser prostituta.

    E de qualquer maneira dirigia-me a "ti" enquanto entidade intelectual num debate aberto e (acho que) civilizado, por isso se levaste alguma coisa a peito e/ou com má intenção, please accept a reparation, as that was not my intention.

    By Blogger T. M., at 3:47 da tarde  

  • A prostituicao e um bem menor da sociedade. Sem ela, sociedades cairiam na ruina. E mais nao digo.

    By Blogger Gonzo, at 12:23 da tarde  

  • Toda a gente tem o direito de se prostituir, embora não o veja propriamente como um direito, mas como uma necessidade quer de ganhar dinheiro, quer de ganhar reconhecimento ou algum estatuto.

    Não ponde de lado as prostitutas que o são por uma questão da sua sobrevivência mais primária, algumas sendo-o chocantemente por uma questão de herança familiar, outras vitimas do desemprego, do analfabetismo, da pobreza, outra há que o são por sua opção. Pela forma fácil de chegar a um nível de vida que jamais poderiam atingir de outra forma.
    Terei inevitavelmente, um pouco mais de respeito pelas primeiras que pelas segundas.

    Não tenho respeito algum por todos aqueles que se prostituem como modo de estar na vida, prostituindo-se por pactuarem de princípios relativamente aos quais à partida estariam em desacordo, não fosse o reconhecimento e o estatuto que essa cumplicidade hipócrita lhes proporciona.

    By Blogger marta, at 1:33 da manhã  

  • (A procura d)o reconhecimento e (d)o estatuto, essas metas tão portuguesinhas, acho que é isso mesmo, Marta.

    By Blogger Tiago Mendes, at 1:50 da manhã  

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