aforismos e afins

17 junho 2005

O escritor (1)

O meu único leitor... Mais tarde trocá-lo-ei pelo leitor ideal, por esse patifório íntimo, esse querido velhaco com quem poderei falar como se nada tivesse valor a não ser para ele - e para mim. Por que acrescentarei e para mim? Esse leitor ideal poderá porventura ser outro que não o meu alter ego? Para quê criar um mundo nosso, se ele tem de fazer sentido para todo o bicho careta?
...
E que pode um simples escritor criar que não tenha já sido criado? Nada. O escritor reordena a matéria cinzenta na sua pinha. (...) Alguns livros modificaram a face do mundo. Reordenamento, mais nada. Os problemas da vida permanecem. Pode-se fazer o levantamento da pele de uma cara, mas a idade da pessoa é indelével.
...
Para nascer águia, uma pessoa tem de se habituar às alturas: para nascer escritor, tem de aprender a gostar de privações, sofrimentos e humilhações. Tem, sobretudo, de aprender a viver à parte.
...
Ah, sim, esquecia-me de mencionar uma coisa!... É um pormenor que talvez o assuste: é-me indiferente que os livros venham a ser publicados ou não. Quero expulsá-los de dentro de mim, mais nada. As ideias são universais: não as considero propriedade minha...

[Henry Miller, Nexus]

14 Comments:

  • tem muito nexus o que ele diz

    By Blogger jmnk, at 1:29 da manhã  

  • :) :) no plural e tudo, gostei!

    By Blogger T. M., at 10:13 da manhã  

  • Eu não concordo com "para nascer escritor,... sobretudo, de aprender a viver à parte." Se o escritor viver à parte como pode ele escrever sobre as realidades e experiências da vida? Não vamos ler só fantasias...

    PS: Por isso não gosto de alguns escritores portugueses (e não só): isolam-se demasiado no seu canto, onde para eles até a sua própria ignorância faz sentido :)

    PS2: Mas é isso que as pessos procuram: as tragédias dos outros...

    By Blogger Patricia, at 1:49 da tarde  

  • Cara Espelho, nao creio que esse viver 'a parte seja viver "completamente" de forma isolada, qual lobo da montanha, certamente nao "desde sempre". A forma que eu leio isso e' sobretudo uma forma (exacerbada) de individualismo, de reflexao individual, nmas nao em absoluto longe dos outros. Acho que e' mais estar numa dimansao diferente, olhar para a realidade com outros olhos, porque se esta fora dela, nao literalmente, mas no sentido de nao estar no meio da confusao. No fundo, de "nao andar por ai".

    Quanto a escritores que se isolam no sentido que tu referes - de so olharem para o seu umbigo - isso e' uma fenomeno bastante diferente... Os grandes escritores, o Kafka, o Dostoievsky, o proprio Miller, o Pessoa, todos viveram num mudo 'a parte, num mundo seu. Mas conheciam muito mais da natureza humana que os que estao derretidos nela... para ver bem a realidade e' necessario subir ao cumo da montanha, mas nem todos tem pulmoes ou vocacao para essa caminhada...

    PS: Obrigado pelo comment.

    By Blogger T. M., at 2:16 da tarde  

  • Compreendo o que queres dizer... e depopis de reler o texto e o teu comentário concordo. Mas permite-me dizer, que na minha opinião os autores que referiste, não viveram num mundo a parte, mas sim como disseste noutra dimensão que não era aquela do presente. Pelo menos o Pessoa tem poemas que era impossível serem escritos se não se envolvesse e vivesse na sociedade. Eu acho que ele talvez tinha o dom era de conseguir viver em duas dimensões simultaneamente, e que as frustrações dele se manifestavam quando essas dimensões colidiam...
    Mas isto é a minha opinião, é o que vejo quando leio coisas dele e dos seus outros deles...

    By Blogger Patricia, at 2:38 da tarde  

  • «...para ver bem a realidade e' necessario subir ao cumo da montanha, mas nem todos tem pulmoes ou vocacao para essa caminhada...»
    Diz-se que o ponto mais alto da montanha é simultaneamente o mais belo e o mais solitário...(lembrei-me desta frase ao ler a tua..)
    Acho que toda a manifestação artística resulta de momentos de reflexão e introspecção...Um escritor (ou pintor, ou músico, ou..) tem de ter qualquer coisa de «seu», de autêntico, verdadeiro para dizer...senão vai ser banal, vai ser apenas uma cópia de outro/s qualquer/quaisquer. Essa «verdade» só se encontra...procurando!, bem no fundo do que cada um de nós é. Daí ser necessária essa dose saudável de isolamento.
    claro que «o que cada um de nós é» não está à margem do Mundo. Ele ajuda à nossa construcção e, consequentemente, está presente na nossa expressão.

    By Blogger Gabi, at 3:33 da tarde  

  • Gabs, obrigado pelo teu comentario tambem, parece-me muito lucido. Lembra-me alias algo do Vergilio Ferreira que como vem a proposito, acho que publicarei aqui ou talvez no My Drishti. Provavelmente neste ultimo, diria...

    By Blogger T. M., at 4:46 da tarde  

  • Existem muitos escritores. No entanto, coloco a questão: de que tipo de escritores estamos a falar?
    Lembrei-me de Schopenhauer, que dizia que existem três tipos. Aqueles que escrevem sem pensar, a partir da memória, das reminiscências, ou mesmo directamente dos livros dos outros. Esta, é a classe mais numerosa. Os que pensam enquanto escrevem, ou seja, pensam para escrever. Muito vulgares. E aqueles que pensaram antes de começar a escrever. Escrevem simplesmente porque pensaram. Muito raros.
    Estes últimos, são aqueles que sem terem essa preocupação, deixam a sua marca na humanidade, marca que permanece através do tempo. Os que, como diz Vergílio Ferreira, tem o grande sonho de nunca encontrar o leitor ideal, porque se o encontrassem, a sua obra morreria aí, uma vez que uma obra tem tanto mais valor, quanta a sua perpetuidade em termos da recriação que cada leitor faz dela.
    Ainda parafraseando Vergílio, “Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão”, o que para mim representa, ser fatalmente humilde.
    Escrever, é uma grande aventura que exige muita coragem, devoção e humildade.
    O valor da escrita, e consequentemente do escritor, é tanto maior, quanto a dose de qualquer uma destas coisas. A esta luz, e considerando a concepção de escritor de Henri Miller, coloco outra questão:
    Em que grupo de escritores podemos encaixar Henry Miller?

    By Blogger marta, at 6:18 da tarde  

  • Marta, essa distinção é interessante, mas tenho alguma dificuldade em aceitá-la plenamente... (embora não consiga propor nada alternativo assim imediato). Tenho dificuldade em caracterizar o Miller, mas é um escritor certamente provocador e auto-consciente, mas não um daqueles que causa rupturas gigantescas, parece-me.

    Não conhecia essa frase de Vergílio Ferreira, embora a adivinhasse. O curioso é que eu tinha escrito algo semelhante há uns tempos, e acho que vou por outro post... espero que seja o ultimo por hoje! :)

    By Blogger Tiago Mendes, at 6:54 da tarde  

  • Marta, embora (acho que) perceba perfeitamente o que queres dizer com o "Escrever, é uma grande aventura que exige muita coragem, devoção e humildade." não concordo totalmente. Que é uma "aventura" sim, mas isso não é muito qualificativo, logo não é muito polémico (so, that´s fine).

    Mas não acho que exija muita coragem. Acho que a escrita verdadeira jorra de dentro, e surge como inevitável. Nesse sentido, o escritor só tem que deixar que a mão seja esse veículo da escrita. Como eu li algures, e achei lindíssimo, é pôr o que somos "na ponta dos meus dedos". É quase como um imperativo moral escrever, para podermos "ser".

    A devoção, que é um "facto", não me parece também muito adequada. POrque mais uma vez não há grande alternativa. Mas sim, compreendo que aqui queres dizer que quando se escreve isso absorve e exige dedicação total.

    A humildade discordo mas também compreendo, na dimensão da humildade para nós próprios, de aceitarmos que ao escrevermos estamos também a conhecermo-nos e que como tal não devemos arrogarmos de não ter necessidade de escrever. Não: a escrita traz-nos algo de novo e nesse sentido tem que merecer todo o nosso respeito (isto vai de encontro à minha interrogação no post linkado sobre se a escrita é "autónoma" ou não).

    Mas todos os verdadeiros escritores se estão a marimbar para os leitores, como diz o Miller. Aliás, porque só com essa postura é que a escrita é sincera e verdadeira. POr isso o escritor não tem que ser humilde para com os "outros", os leitores, mas apenas humilde no acto de escrever.

    No acto de se "entregar" à escrita...

    N

    By Blogger T. M., at 7:21 da tarde  

  • É precisa coragem para se por o que se é, na ponta dos dedos. Ou seja,para não se ter o medo da aventura de tornar visível o mistério das coisas, que eu acho que é um grande desafio.

    Devoção, no sentido de consagração. Não “apenas” dedicação. Não resisto a citar, de novo, o Vergílio Ferreira “Escrever é orar sem um deus para a oração. Porque o poder da divindade não passa apenas pela crença e é aí apenas uma modalidade de a fazer existir. Ela existe para os que não crêem, como expressão do sagrado sem divindade que a preencha. Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade?”.

    Quanto à humildade, pode não ser-se humilde no nosso viver, mas tem irremediavelmente de o ser-se quando se escreve. Escrever, é um momento de verdade.

    Não querendo estar a ser espírito de contradição, o verdadeiro escritor, não se está nas tintas para os leitores, na minha modesta opinião.
    Se nos debruçarmos sob mais uma reflexão do Vergílio Ferreira: “Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem.”
    Não sei se estarei a interpretar isto da forma mais lógica, mas não me parece que alguém que tem o dom e a audácia de despertar as coisas do seu modo confuso de serem, não se preocupe com quem o vai ler, embora essa não seja a sua preocupação primordial.
    Como não nos importarmos com quem nos lê, exactamente quando estamos a ser mais humildes e mais verdadeiros que nunca, e a dar o melhor de nós?
    Não é uma questão de reconhecimento. É uma questão do julgamento que possam fazer, do melhor que temos para dar.

    Foi isto que eu quis dizer.

    By Blogger marta, at 8:31 da tarde  

  • Marta, obrigado pelo further comment. Percebo melhor o que dizes e concordo com isso excepto que tenho algumas dúvidas quanto à «humildade» do escritor... eu interpreto as palavras de VF como tu o fizeste mas ele neste caso fala introspectivamente e esse falar é quase sempre dirigido a um outro desconhecido, que um dia nos aparece pela frente sem mais nem menos...

    Outros escritores não creio que tenham essa necessidade tão premente ainda que ela lá esteja incutida bem no fundo... no fundo, só quero dizer que é possível haver um "verdadeiro escritor" que se está marimbando para todos os outros - o problema está que é provave´l que nunca tenha publicado nada e que nós não o conheçamos!!

    Esse é o problema: so conhecemos aqueles que de algum modo se deram a conhecer.

    Por exemplo, o Santa-Rita Pintor destruir tudo o que tinha escrito...

    By Blogger T. M., at 9:42 da tarde  

  • ...se destruiu, é porque não lhes tinha o amor suficiente para as partilhar.
    ...seriam coisas que considerava irrisórias?
    ...seriam coisas pelas quais não teve a coragem de ser julgado?
    ...seriam coisas que escreveu com toda a sua humildade?
    ...seriam coisas que escreveu com devoção?
    ...seria coisas honestamente válidas para si?
    Santa-Rita Pintor, poderá ter cometido esse acto, num momento de loucura...e o certo é que nunca se vão saber as respostas a estas questões, o que não quer dizer que não as possamos colocar...

    By Blogger marta, at 10:12 da tarde  

  • ele teve direito a destrui-las, não acho que eu tenha direito a dizer que ele "não teve amor suficiente para as partilhar". porque ele é soberano nessa escolha.

    tal como o antero e o mario de sa carneiro se suicidaram, e não é da minha boca que vai sair que eles "não tiveram suficiente amor pela vida"...

    By Blogger T. M., at 10:15 da tarde  

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