aforismos e afins

13 junho 2005

Carpe Diem

Quando o homem ainda não era homem, vivia, caçava, acasalava, e nada o incomodava. Depois, por ordem de Deus ou por mera evolução genética, sofreu um grave acidente de percurso: tomou consciência de «si». De que «existia». Sobretudo, tomou consciência de que tinha «consciência». Ficou perdido, no vazio de perceber o mundo - de perceber que não o entendia, que era um paradoxo inexplicável. Chorou a morte dos seus como os seus ex-companheiros animais «selvagens» não choravam, ainda que sofressem. Resolveu inventar Deus e espalhar a boa-nova, quem sabe se por altruísmo das gerações vindouras. Mas mesmo o recato do «Além» vida não era suficiente para suportar o amanhã. Então, depois de criar Deus, uma história comvincente para ele e lhe dar plenos poderes - a «omnipotência» -, resolveu criar o amor, sem dúvida a maior invenção do homem. Para atravessar a existência de forma menos dolorosa. Sim, porque os seus ex-companheiros animais «selvagens» não «amavam». Procriavam, tratavam uns dos outros, brincavam, viviam em grupos, cuidavam uns dos outros, mas isso não era amar. Era o código genético deles, e sabem lá eles o que é isso de código genético.

O homem inventou o amor e depois ao perceber que esse amor era difícil de concretizar (porque o peso da existência exigia um balão de ar quente bem volumoso) inventou as variantes do amor, tentando-se convencer que uma qualquer vivência sua era um «verdadeiro amor» (o voo falhado de quem está sempre em terra). Porque é mais fácil simular do que enfrentar a verdade o fracasso. «Devíamos ver-nos sempre como pessoas que vão morrer amanhã.
É esse tempo todo que supomos à nossa frente que nos mata», disse
Ela Triolet. Será mesmo que nos mata? Se temos que aceitar isso, por que carga de água é que nos havemos de martirizar a toda a hora?
É que não é culpa nossa. Ouviram bem? Não é culpa vossa tão-pouco. «Queixarmo-nos de morrer é queixarmo-nos de ser homens», disse por sua vez Jean de Rotrou. Mas, é claro, faz parte do faz-de-conta em que o homem escolheu viver insistir no fingimento que a morte não é um problema e como tal não falar dela. No fundo, fingir que não é homem. Ou, de facto, não saber que [o] é. Carpe diem.

4 Comments:

  • E ser homem, nada mais é do que sonhar como se se vivesse para sempre e viver como se se morresse amanhã (frase celebrizada por James Dean). Se possível, com muito amor. Nos sonhos e na vida.
    Inventando-o, sempre, mas acima de tudo, descobrindo-o, porque o amor não é uma invenção do homem, é a sua mais divina parte.

    By Blogger marta, at 12:50 da manhã  

  • Espera, eu concordo que o homem tente viver «para sempre», e como se morresse amanhã. Discordo é do "COM" quando tu dizer "se possivel, COM muito amor".

    é que esse viver «para sempre» só é possivel ATRAVES do amor. por isso o homem "inventou" o amor, neste sentido apenas, de permitir a leveza, a sensação de eternidade, de que o tempo parou.

    ou seja, eu diria, "e da única forma possivel, atraves do amor".

    By Blogger T. M., at 12:56 da manhã  

  • ...Rendo-me...!

    By Blogger marta, at 7:33 da tarde  

  • Rendição aceite, agora podias ser minha prisioneira da paz :)

    By Blogger T. M., at 7:46 da tarde  

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