aforismos e afins

19 junho 2005

Vocação

Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações. Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti. E, se a atraiçoas, é a ti que desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente, pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula. O tempo é que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil. Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas, não se te impõe como a solução de um enigma, mas como um apaziguamento dos litígios e uma cura dos ferimentos. E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão. Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos.

[Antoine de Saint-Exupéry, Cidadela]

6 Comments:

  • Que texto lindo! E não podes imaginar como me identifico com cada palavra!..
    «Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti.» Que bem definido!Essa procura interior («nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula.»), esse «apaziguamento dos litígios». (acrescentar apenas que não há sensação de apaziguamento ou tranquilidade que seja constante- assim seria demasiado fácil! :p oscilamos sempre entre momentos de maior confiança, certeza, e momentos de fraqueza ou desnorte, em que parece que já não há «a» «verdade». Mas nestes, resta-nos apenas olhar para o essencial, e aí ver que «ela» não desapareceu, apenas ficou encoberta pelas nossas desconfianças, mas está ali, à espreita.)

    «...te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações.» A propósito de «aspirações» e, dado que o teu blog é de aforismos, lembrei-me de uma frase (que não me recordo quem disse): «Lá muito ao longe, em plena luz do sol é que estão as minhas mais altas aspirações. Posso não as alcançar, mas consigo olhar para o alto e adivinhar-lhes a beleza, ver para onde elas apontam e tentar seguir nessa direcção» =)

    By Blogger Gabi, at 9:53 da manhã  

  • É verdade. Que belo texto.
    Não ceder aos chamamentos que nos fazem mais inteiros, é abdicar do essencial para se ser.
    Descobrir a nossa vocação e não a seguir, é pior que nunca a descobrir.

    By Blogger marta, at 10:03 da manhã  

  • Gabs, confesso que pensei em ti ao publicar o texto, era inevitável, não? Obrigado pelo aforismo que deixaste, gostei da ideia.

    By Blogger T. M., at 11:41 da manhã  

  • E obrigado à Maria João pela sugestão do texto que publiquei.

    By Blogger T. M., at 11:42 da manhã  

  • ( Se a I. te pôs um pouco a par do meu percurso, sim, inevitável. =) )

    By Blogger Gabi, at 2:31 da tarde  

  • Flashes da vocação
    Mesmo que se vá revelando com o passar do tempo, há momentos (stops no tempo) em que se tem a perfeita noção de qual é/o que é a nossa vocação...são "flashes" (como se se pudessem ver) que chegam de vez em quando; um "plim" (como se se pudesem ouvir) sentido e que faz (mesmo) todo o sentido...É parecido como quando se tem uma ideia...está-se a andar na rua, a conduzir, a falar com alguém, e aí está...uma solução, um caminho, uma vontade expressa. É tão bom saber de que é que se gosta e o que é que se quer...
    MJA

    By Anonymous MJA, at 4:46 da tarde  

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