aforismos e afins

22 dezembro 2005

Eu voto Cavaco (3)

Diz o José Barros nos comentários:
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«Concordo com a tua crítica a Soares. Se não houvesse outros motivos, as prestações de um e de outro serviriam só por si para os apoiantes de Soares darem o seu voto ao Cavaco ou ao Alegre. Posto isto, não se trata, penso, de uma questão de valores civilizacionais. É pura e simplesmente uma questão de educação. Soares - nascido num berço de outro - não a teve. Há muita gente - a avaliar pelas reacções ao debate - que também sofre do mesmo problema.»
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Tenho que discordar ligeiramente de ti, meu caro. Para mim o respeito democrático pelo outro na arena pública é um valor fundacional da democracia em que vivemos. Como essa democracia é uma das bases da nossa civilização, segue-se (creio que sem demasiado exagero) que se trata de um valor civilizacional. Quando falamos não só de candidatos a PR, mas duma pessoa que é ex-presidente, o contexto só agrava o que já seria em si só deplorável.
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Quanto à educação, não tenho dúvidas que Soares a teve. Isso agrava o problema. Se ele não a tivesse, nós ainda dávamos um desconto. Mas como ele a teve, todos percebemos que aquela atitude é duma arrogância e sobranceria que está ao nível dos piores líderes africanos, que se acham no direito de fazer o que querem nas suas pretensas democracias. As reacções dos outros também não se justificam por falta de educação mas talvez por compadrio, ou medo, ou desonestidade intelectual (o "dois pesos duas medidas"). O Francisco Mendes da Silva apontou o desdém de Soares no Pulo-do-Lobo. O LAS foi dos poucos que referiram as reacções dos directores do Público e do DN no Blog da Causa Liberal. Acho no entanto que chamá-las de "ridículas" é pouco, mas claro que se percebe o que está por detrás disso.
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Quanto à história do "respeito" que eu disse ter perdido pela massa de pessoas que se identifica e aprova a conduta de Soares no debate, a palavra tem no contexto um sentido de "consideração". Não vou atrás de ninguém por terem opinião A ou B. Apenas reitero que quem defende Soares depois do que ele mostrou ser (mais do que o que ele fez) naquele debate, demonstra ter valores tão díspares dos meus no terreno da política (e da convivência democrática) que isso me faz perder alguma consideração por essas pessoas. Isto é puramente negativo e não positivo. Cada um tem direito a dizer o que quer e não há qualquer espírito de perseguição política. Isso não me impede de dizer que, muito democraticamente, tenho pouco respeito - leia-se: consideração - por quem tem ideias A ou B, pelo que revelam acerca de valores X ou Y que considero fundamentais.
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De resto, uma hipérbole de vez em quando não faz mal a ninguém para que se possam marcas certas diferenças fundamentais sem pejo. Entre o lamaçal das discordâncias mitigadas e a separação de águas que resulta duma crítica directa e dura, prefiro optar pela segunda sempre que e apenas quando estiverem em causa valores que considero essenciais. Como é o caso.

11 Comments:

  • Caro Tiago
    Desta vez discordo do que diz. Para mim, o respeito (tout court, sem necessidade de qualificacao como democratico) pelo outro na arena privada (aquela que escapa ao julgamento publico, mas nao ao do proprio e ao do outro) é que é um valor fundacional.
    Feliz Natal,
    Ana

    By Anonymous Anónimo, at 12:17 da tarde  

  • Cara Ana,

    É um valor fundacional das "relações pessoais", com certeza. Não das "relações políticas", que é o que se trata. Qualquer pessoa deve ter o direito a "desrespeitar" quem quiser nas paredes da sua casa mas não na praça pública. Aqui temos que distinguir o "público" e o "privado". E falamos de política. Que SOares diga o que disse a Cavaco nos seus jantares privados não me chateia nada, é a natureza humana. Que o faça não só em público, como da forma como o fez, acho inaceitável. Foi nesse sentido que usei a palavra "fundacional" - no CONTEXTO POLITICO (e não privado).

    By Blogger Tiago Mendes, at 12:49 da tarde  

  • Caro Tiago
    1. Nao penso que qualquer pessoa deva ter o direito de desrespeitar quem quiser nas paredes de sua casa. Acho sim que qualquer pessoa tem a obrigacao de respeitar o outro nas paredes de sua casa, o que nao e a mesma coisa.
    2. Acato o seu ponto: as relacoes politicas sao relacoes sociais, e nao relacoes privadas. Agora ficou claro para mim porque qualificou o respeito (democratico) no post. Obrigada.

    By Anonymous Anónimo, at 1:07 da tarde  

  • Cara Ana,

    Eu falo de "desrespeitar nas 4 paredes" as pessoas de "fora", naturalmente. Não falo muito menos de desculpabiliações de maus tratos a mulheres ou crianças, naturalmente. Falo apenas da "tolerância política", e não duma dimensão "física". O que eu pretendia dizer é que por exemplo toda a gente tem direito a ser fascista ou nazi ou homofóbica ou racista ou o diabo a 4 dentro da sua casa, mas no esppaço público tem de respeitar algumas regras mínimas. Ainda que deva quanto a mim poder exprimir totalmente a sua opinião - no campo das ideias - poderá não ter liberdade total para ir para além disso mesmo, ie., de concretizar o que seria o seu "sonho de sociedade".

    By Blogger Tiago Mendes, at 1:13 da tarde  

  • Caro Tiago,

    Compreendo a tua posição. Dou-te razão neste ponto: a discussão política não pode aceitar comportamentos como os que o Soares teve (ou o Alberto João costuma ter), porque aceitá-los equivale a abandonar qualquer hipótese de discussão séria sobre os problemas do país. Os que branquearam o comportamento do Soares são os mesmos que ficam chocados com o Alberto João. São pessoas que não se interessam minimamente com a qualidade do discurso político e que têm indignações selectivas.

    Posto isto, eu conheço o Soares razoavelmente bem. E sempre o achei mal-criado. Não é de agora, ele sempre foi assim; e, com a idade que tem, já não vai mudar. Acho que o problema dele é mesmo a falta de educação. O exemplo é parecido com o de Pinto da Costa, que também nasceu numa boa família e tem a má educação que se sabe.

    Que haja pessoas que pura e simplesmente idolatram estas pessoas é que é um problema civilizacional. Diria que é uma consequência do subdesenvolvimento.

    By Anonymous José Barros, at 1:19 da tarde  

  • Caro tiago, há por aqui respeito a mais: umas vezes fundamentado, outras nem tanto. o respeito pelo outro (seja pessoal seja político - e, em certa medida, o primeiro engloba o segundo) é um dado adquirido numa sociedade democrática. por isso, não se percebe que tenha perdido o respeito pelas pessoas que apoiam Mário Soares quando devia apenas (em nome do respeito pelo outro) perder o respeito pelas opiniões ou posições que eles defendem. e essas do "excessos" que clarificam que tão generosamente aplica a si não podia ser também aplicada a mário soares?
    teresa

    By Anonymous Anónimo, at 2:38 da tarde  

  • Cara Teresa:

    Por partes.

    "o respeito pelo outro (seja pessoal seja político - e, em certa medida, o primeiro engloba o segundo) é um dado adquirido numa sociedade democrática."

    Nada é adquirido infelizmente. Aliás, isso seria um paradoxo. Porque ao ser adquirido, traria um incentivo ao desleixo, que poria em causa isso mesmo. Não creio que o respeito seja um dado adquirido - infelizmente. Basta lembrar Alberto João Jardim, Valentim Loureiro, o tipo de Marco de Canavezes, os ataques de Santana Lopes a Sócrates sobre uma eventual (homo)sexualidade, e os ataques de Soares a Cavaco. Basta 1 contra-exemplo para provar a não universalidade desta afirmação.

    "quando devia apenas (em nome do respeito pelo outro) perder o respeito pelas opiniões ou posições que eles defendem"

    Há certas posições que são demasiado fortes para que não levem a uma apreciação "ad hominem". Uma coisa é eu "discordar" de alguém que nao gosta de filme A ou B. Outra coisa é por em causa valores base. Aí, a extensão da "ideia" à "pessoa" parece-me necessária.

    "e essas do "excessos" que clarificam que tão generosamente aplica a si não podia ser também aplicada a mário soares?"

    Repare que Soares não só faz o "trigger" disso, como o faz num contexto diferente. Acho que a analogia é muito pobre, sinceramente.

    Volte sempre,

    By Blogger Tiago Mendes, at 2:59 da tarde  

  • caro Tiago, sem querer abusar do seu tempo, uma pequena retificação: quando falo em "dado adquirido" não estou a referir-me à prática, que nunca está obviamente adquirida, mas à própria definição do conceito de sociedade democrática. Quanto às posições "demasiado fortes", parece-me que o problema está exactamente aí: nos limites da tolerância ou, se quiser, do respeito pelo outro. Não sei se respeitar o outro enquanto esse outro não nos incomoda é sinal de um grande respeito. de qualquer forma,e já que estamos a falar de respeito, aproveito para lhe dizer que o respeito a si e às suas opiniões mesmo quando discordo delas.um bom Natal

    By Anonymous Anónimo, at 3:14 da tarde  

  • Cara Teresa, não abusa nada, eu é que tenho a agradecer os comentários. Percebo melhor o seu primeiro ponto e concordo. Acho no entanto que a democracia, como a tolerância (o Henrique Raposo já escreveu sobre isso muito melhor que eu) é uma "prática" - e só existe perante o "outro". Não existe em si. Será talvez uma questão de ênfase, mas julgo que a prática não pode ser desvalorizada, sobretudo neste contexto (debate Soares-Cavaco), onde os limites foram claramente ultrapassados.

    Quanto às posições "demasiado fortes", eu frisei que o meu ponto era o da "consideração", mais que de "respeito", e também que havia alguma hipérbole à mistura. Eu náo referi isto antes, mas confesso que tive um incentivo adicional a "exceder-me" no tom dada a ausência de críticas fortes, sobretudo na imprensa - algo que achei verdadeiramente vergonhoso, pela complacéncia e duplicidade de critérios que demonstra.

    Eu por acaso até tenho uma concepção de tolerância e respeito numa democracia liberal que é bastante mais "positiva" que "negativa", no contexto da blogosfera liberal. Já disse várias vezes que acredito, mais do que num mero liberalismo negativo, num chamado "individualismo fraternitário", que envolve uma propensão a "compreender" e "aceitar" o outro que vai para além do mero "respeitar" no sentido negativo (esse que a Teresa diz do "tolero-o desde que ele não me chateie".)

    Obrigado pelo seu reparo final, e divirta-se. [Não consigo desejar *** *****, não leve a mal].

    By Blogger Tiago Mendes, at 5:29 da tarde  

  • Oh, não fosse o Mendes e que seria dos «valores fundacionais» da democracia!...
    Olhe, sem pejo e sem hipérbole, você não passa de um idiota chapado. Está, portanto, bem para o Cavaco da Cavaca.

    By Anonymous carlos, at 7:05 da tarde  

  • Eu cá não! Só de me lembrar que ele alterou o horário para duas horas mais cedo nos anos oitenta obrigando-me a levantar de noite e a ver só a luz do dia na segunda aula de manhã. Nem pensar! Não gosto dele nem do Mário Soares. Se o Cavaco Silva não se soube defender em frente ao seu, como diz o texto: besta, inferior intelectualmente e mal-educado Mário Soares, é porque não deve ser assim tão esperto. E não voto nas pessoas por pena, era só o que faltava. Mas quem é que quer um Presidente choninhas? Nem sabe proteger a sua pessoa quanto mais milhões de portugueses! Além disso acho que se Portugal está como está foi por causa de governos anteriores, e nós lá vamos outra vez votar na mesma m$%da!

    By Anonymous silviadeoliveira, at 5:39 da tarde  

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